domingo, 23 de abril de 2017

Marcos da Seca em Senador Pompeu serão preservados

Foto - Alexa Pimentel
Os resquícios de uma das passagens mais cruéis da história da seca no Ceará conquistaram um aliado muito importante para a sua preservação. O Campo de Concentração, o Cemitério das Almas da Barragem, o Açude Patu e a Vila dos Ingleses, um sítio arquitetônico situado no entorno desta cidade do Sertão Central, provas materiais daquela época, serão restaurados e preservados pelo Município. A decisão foi tomada a partir de uma Ação Civil Pública (ACP), endossada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE). Segundo o promotor de Justiça do Juizado Especial de Senador Pompeu, Geraldo Nunes Teixeira, um inquérito civil público e um relatório técnico foram realizados pelo MPCE, concluindo que o tombamento do "Campo de Concentração" é benefício para a defesa da cultura e da história cearenses, por apresentar "inegável valor histórico-
cultural". O Município assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Caso seja descumprido, será aplicada multa de R$ 5 mil por mês de atraso.
Importância
Um relatório do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reforça a importância histórica e cultural da área, que foi utilizada para instalação de um campo de concentração no ano de 1932, retendo retirantes que iam para Fortaleza, na tentativa de fugir da seca. Segundo o documento, dos sete campos de concentração existentes no Ceará, à época, o de Senador Pompeu foi o segundo maior, com uma população de 20 mil pessoas. Ainda existem sobreviventes que passaram pelo lugar e participam de uma caminhada religiosa.

Agora, além da Caminhada das Almas, realizada todos os anos, da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores até o cemitério da barragem do Patu, a história ao seu redor reviverá nos casarões erguidos na época da construção do açude. Foi o primeiro passo para o tombamento do sítio arquitetônico como patrimônio histórico. Ao assinar o Termo de Ajustamento de Conduta, a Prefeitura Municipal de Senador Pompeu se comprometeu em restaurar as edificações erguidas na década de 1920 como também preservá-las.

Solução
O açude Patu seria a solução para amenizar a problemática do abastecimento d'água na região. As obras foram iniciadas no ano de 1919, mas o reservatório só veio de fato ser concluído no ano de 1987. A sua construção foi marcada por atos de violação de direitos, a começar pelo cancelamento das obras, em 1924, que em seguida abriu os portões do canteiro de obras abandonado para a efetivação da política de confinamento de flagelados da seca do ano de 1932, prática que foi iniciada no ano de 1915.
Representando o Município, o secretário de Educação, Cultura e de Esportes, Célio Pinheiro informou ter participado na negociação com o Ministério Público do Estado. "Entendemos e reconhecemos a importância desse tesouro, tanto pelo aspecto religioso, como turístico. A nossa preocupação está apenas no prazo definido para a realização do restauro, 12 meses. Acreditamos que o prazo hábil é de dois anos. As administrações anteriores abandonaram o principal patrimônio histórico do nosso povo", explicou.

Foi o advogado Valdecy Alves, nascido em Senador Pompeu, quem ingressou com a Ação Civil Pública, exigindo a restauração e preservação do sítio histórico, em 2014. Entretanto, surgiu o impasse de quem seria a responsabilidade do restauro e da preservação do sítio, já que a obra foi realizada pelo Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs).
O Núcleo de Apoio Técnico do MPCE e o Iphan auxiliaram no embasamento da Ação. Após o restauro, será possível tombar o conjunto material e imaterial como patrimônio histórico Municipal, Estadual e Nacional, acrescentou o promotor de Justiça.

Campo de Concentração
Conforme pesquisas feitas por Valdecy Alves, no fim de abril de 1932, além do Patu, foram criados outros seis campos de concentração à beira da ferrovia que ligava Fortaleza ao Crato, linha ferroviária Norte-Sul, no Ceará. Foram os campos do Buriti, no Crato; de Cariús; de Quixeramobim; o do Ipu, no Norte do Estado e ainda do Otávio Bonfim, e do Urubu, em Fortaleza.

O objetivo era impedir que os flagelados invadissem a capital cearense. Em condição de sobrevivência sub-humana muitos acabaram morrendo em Senador Pompeu. Quando pároco de Senador Pompeu, na década de 1980, o padre Albino Donatti idealizou e passou a realizada a Caminhada das Almas. A procissão ao cemitério da barragem do Açude Patu relembra, todos os anos, as vítimas da seca de 1932, mortas naquele lugar, para muitos um campo de concentração.

Caminhada das Almas

A Caminha é realizada ao amanhecer do dia do segundo domingo do mês de novembro. Simboliza a luta do povo nordestino por direitos básicos, condições de vida digna para todos, esperança, um caminho de mudanças na qualidade da Educação e acesso à terra para produzir. Ele morreu no dia 7 de agosto de 2013, aos 92 anos.