sábado, 2 de dezembro de 2017

Situação crítica em Milhã: água salobra chega pelas torneiras

Foto - Diário do Nordeste
A prioridade dos moradores de alguns bairros de Milhã deixou de ser a busca por comida e passou a ser por água. "É isso mesmo. Nunca imaginei uma situação como essa. O que sai das torneiras aqui de casa é um lodo que chamam de água", desabafa a dona de casa Cecília da Silva, 73. Cecília diz que a água, de tão ruim e poluída, "só serve mesmo para lavar a privada e ainda deixa o vaso sanitário sujo. Se a gente colocar no balde, ele fica vermelho e não serve mais para nada". Para contornar o problema, a dona de casa utiliza uma velha geladeira como depósito para armazenar o que se convencionou chamar de água em Milhã.

Manuel Gonçalves da Silva, 82, esposo de Cecília, caiu na "tentação" de tomar um banho, pois não aguentava mais a quentura. "Estava uma semana sem me banhar. O jeito foi usar dessa água. Estou arrependido até hoje. Peguei uma coceira danada, por todo o corpo. Foi a primeira e última vez que fiz essa besteira", conta.Uma opção de água potável na cidade é um poço profundo cavado pelo Estado. Com uma fichinha de R$ 1, é possível adquirir um galão com 20 litros. O fornecimento alternativo, entretanto, não deve durar tanto. "O poço tinha uma vazão de 2.500 l/h. Com o aumento da demanda por causa do tempo quente, não chega mais a mil. Não sei até quando vamos continuar funcionando", argumenta Wilson Bezerra, que administra o equipamento. Segundo Wilson, se não chover razoavelmente neste mês, a tendência é de que o poço seque até o fim deste ano. Muitos moradores que não têm condição de se deslocar até o local, na avenida principal de Milhã, acabam pagando mais caro. É que atravessadores pagam R$ 1 pelo galão de 20 litros e o revendem por R$ 2,50. É o caso de Francisco França da Silva Altino. "O que cobro a mais é para pagar o combustível e tirar uma parte pelo meu trabalho. Muitas vezes, a gente deixa a água bem distante", explica.A dona de casa Célia Matias, que mora no Centro, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Imaculada Conceição, protesta diante da situação. "Passamos 30 dias sem água nas torneiras. Mas, independentemente de ter ou não água encanada, a gente paga R$ 20 todo mês. Aqui na cidade existe um verdadeiro comércio clandestino. É feito por meio de carros, motos, carros-pipa. Vem água de todos os locais, de procedência duvidosa. A gente tem que arriscar para não morrer de sede".
Situação crítica
Sobre o abastecimento para a população deste Município do Sertão Central, o diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), Gildecir Pinheiro Machado, avalia a situação como crítica. O açude de onde é captada a água para abastecimento da cidade continua seco. Poços profundos, chafarizes, carros-pipa, enfim, uma estrutura de emergência foi montada para não deixar a população desassistida. "O SAAE de Milhã se empenha diuturnamente para minimizar o sofrimento dos moradores", justifica.
Das 2.050 ligações à rede de distribuição, apenas um bairro, o Cohab, está recebendo o abastecimento nas torneiras. "São aproximadamente 200 famílias. Entretanto, o abastecimento ocorre por meio de um poço profundo ligado à rede e a água é salobra. Sua utilidade é apenas para uso doméstico e asseio pessoal", acrescentou o diretor, ressaltando que, apesar de a conta ser enviada para o consumidor, apenas a cobrança básica, de R$ 19,90, a despesa não é uma obrigação.
Investimentos
A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) informa que investiu, de 2012 a 2017, cerca de R$ 50 milhões na implantação de melhorias nos sistemas de abastecimento de água no Ceará, bem como a adoção de medidas emergenciais para garantir que as cidades atendidas pela Companhia não ficassem desabastecidas em virtude do agravamento da escassez hídrica no Estado. Deste total, cerca de R$ 33,5 milhões foram investidos na região dos sertões de Crateús e Inhamuns, há mais tempo em situação crítica de escassez. Entre as ações e medidas adotadas, estão a melhoria em adutoras e reservatórios; instalação de poços; adequação de estações de tratamento de água, manutenção de adutoras de montagem rápida (AMR) e instalação de novas tubulações.
Dificuldades
A família de Francisco Édson Soares, visitada há cinco anos, continua a residir numa casa de taipa, na entrada da cidade. O reciclador reclama da concorrência. É que o material que era despejado no lixão do Município agora é disputado também pelos caçambeiros. Antes, fazia R$ 250 por semana. Atualmente, mal consigo juntar esse dinheiro numa quinzena". O que conseguiu na sua pequena plantação de feijão e milho neste ano já foi consumido. "Deu para comer até um dia desses. Agora tenho que ir me virando até chegar o inverno", conta o reciclador, que mora com a mulher, Antônia, e mais três filhos menores no minúsculo barraco. Em relação à água, Édson reconhece que as coisas melhoraram. "Existe uma cisterna a 200 metros de distância daqui. Ela está sempre cheia, pois o Exército passa e abastece. Graças a Deus, posso tirar água na hora que quiser".O comerciante Elizeu Félix da Silva confessa que já teve vontade de parar. "Está tudo parado. Muito pior do que há cinco anos, quando teve início essa grande seca. Só não fecho as portas porque não tenho como iniciar outra atividade. O comércio, hoje em dia, é só para quem já está estabelecido. Ninguém tem coragem de abrir um negócio nessa crise. Para nós, a abertura do Hospital Regional, aqui na cidade, que era uma esperança de dias melhores, não correspondeu".
Seu Elizeu conta que passou a abrir sua loja aos domingos e feriados, "pois tenho que arrecadar de uma forma ou outra para quitar as duplicatas, honrar meus compromissos. "De alguns anos para cá, os carros que trazem o pessoal dos distritos chegam aqui praticamente vazios, com uma ou outra pessoa para comprar no comércio. Não sei até quando vamos aguentar nessa penúria". Boxistas do mercado revelam que matam um boi e não conseguem vender nem a metade no mesmo dia.
No local, a notícia triste foi o falecimento do vendedor de raízes João Monteiro da Silva, há dois anos. O aposentado, que tinha mais de 80 anos - ninguém soube precisar sua idade ao certo - morreu sem ver um bom inverno.
Maria Auxiliadora da Silva, que herdou sua banquinha de vendas, explica que Monteiro tinha um problema cardíaco "e fez extravagância. Ele era teimoso. Só fazia o que queria. Mas agora está descansando ao lado de Deus".
Otimismo
Na zona rural de Tauá, o agricultor José Moura Magalhães se mostra otimista, mesmo diante da degradação que tomou conta da sua terra. "A Caatinga é assim mesmo. Com as primeiras chuvinhas vai tudo ficar verdinho de novo". Sua plantação de milho, neste ano, foi toda perdida. A 200 metros da sua propriedade, encontramos restos de animais. José Moura explica que o local é utilizado como cemitério de animais. Em 2012 morreram muitos bichos. Nos últimos anos, foram poucas mortes".
Em Tamboril, o Açude Carão secou pela primeira vez desde a sua construção, em 1981. A cidade é abastecida por sete poços cavados próximos à parede do Carão. Tamboril também é provida por meio de uma adutora que traz água do Açude Araras, em Varjota. "É uma tristeza grande. Nunca tinha visto o Carão secar dessa forma", desabafa a aposentada Anastácia Camelo de Souza, 70.